O promotor e o senhor

 

--- Qual o pronome de tratamento usado para Promotor de Justiça? Sebastião Pereira Alves, Lages/SC

Quando essa mesma pergunta me foi feita, tempos atrás, eu afirmei que se tratava o Promotor de Justiça por Vossa Senhoria, pois era essa a orientação que nos passava o Manual da Presidência da República, de 1991, ao não colocá-lo entre as autoridades distinguidas pelo pronome “Vossa Excelência”. Todavia, a Lei nº 8.625/93 estabelece no seu artigo 41, I, que os membros do Ministério Público devem receber o mesmo tratamento jurídico e protocolar dispensado aos membros do Poder Judiciário. Sendo assim, promotores e procuradores de Justiça serão tratados por “Vossa Excelência” [V. Exa.].

--- Observo, não raramente, pessoas do sexo masculino, até mesmo idosos insurgirem-se contra a forma de tratamento através do pronome senhor. Preferem qualquer outro tratamento mais informal, sob a ressalva de que o "senhor está no céu", além das mais diversas justificativas. Muitas autoridades, também, não fazem questão de serem tratadas pelos pronomes de tratamento Ilustríssimo ou Excelência, dando preferência a tratamento pessoal relacionado à função que exerce, por exemplo: Juiz "fulano de tal", Desembargador "fulano de tal", Promotor "fulano de tal”. Pergunto, quais as ocasiões e casos em que o pronome de tratamento "senhor" pode ser dispensado, mesmo sendo dirigido a adultos ou autoridades? V.C.T., Florianópolis/SC

De fato, o pronome de tratamento "senhor/senhora" é bem menos utilizado hoje do que alguns anos atrás, quando não se admitia chamar um adulto – fosse pai, mãe, tios, autoridades – de tu ou você. A propósito da antiga exigência por um tratamento mais cerimonioso, transcrevo historinha publicada pela Folha de S. Paulo em dezembro de 1999, intitulada “Folclore janista”:

Jânio Quadros foi convidado, alguns anos após a renúncia, a dar uma palestra na Universidade Mackenzie, em São Paulo. O auditório estava lotado. Assim que entrou, o ex-presidente percebeu que o clima não seria nem um pouco favorável – foi recebido com uma vaia estrondosa pelos estudantes.
Jânio falou durante uma hora, sem se importar com as piadinhas, assobios e outras zombarias dos estudantes. Quando terminou de falar, o reitor abriu para as perguntas. Um rapaz de cabelos compridos e chinelos, sem nenhuma cerimônia, perguntou:
– Você renunciou por quê?
O auditório ficou em silêncio. Jânio ajeitou os óculos, olhou bem para o garoto e respondeu, provocando gargalhadas:
– O senhor já deve ter ouvido falar em Benjamin Franklin. Ele dizia que a intimidade gera dois tipos de problemas: filhos e aborrecimentos. Como não quero ter nenhum dos dois com o senhor, dobre a sua língua ao se dirigir a um ex-presidente!

Então, o que se faz, a princípio, é tratar os idosos, as pessoas mais velhas e as de maior hierarquia por "senhor, senhora" até o momento em que elas próprias dispensem esse tratamento. Na dúvida, é sempre melhor ser formal.

--- Gostaria de saber se posso escrever "conto consigo" ou, apenas, "conto contigo", mesmo se referindo ao pronome de tratamento Vossa Excelência. S. Z., Florianópolis/SC

Você deve usar, por coerência, "conto com Vossa Excelência". "Conto consigo" seria utilizado em Portugal. Porém no Brasil consigo é pronome reflexivo, ou seja, aplicado quando o sujeito e o objeto da oração são a mesma pessoa, por ex.: “Ele conta somente consigo mesmo para executar essa tarefa”. E “contigo” se refere à pessoa que tratamos por TU (ou por VOCÊ, admitindo-se a mistura de pronomes tão comum no Brasil, de que falaremos qualquer dia).

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini - Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros "Só Vírgula", "Só Palavras Compostas" e "Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades" - www.linguabrasil.com.br

 
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