Filosofia

 

Ainda sobre o preconceito ...

Gisele Leite
 
 

(...) Traduz-se então o preconceito em ser mais que uma ignorância e menos que um juízo.[1]

Lutar contra os preconceitos significa buscar a atuação da razão que procura se precipitar diante de uma situação inicial de dependência para alcançar a autonomia de um pensamento que se afirma por suas próprias forças.

Ousar utilizar o próprio entendimento segundo Kant era a palavra de ordem do Iluminismo que se notabilizou por ser um movimento que incita cada um a se libertar dos tutores, da autoridade da tradição, para pensar por si mesmo.

A expressão “Sapere audel” significa literalmente: “Tenha coragem de usar sua própria razão”. O preconceito significa uma idéia recebida sem crítica, uma concepção aceita adesivamente sem reflexão pessoal. É mera presunção de saber e geralmente desacreditado.

Os iluministas foram os maiores inimigos do preconceito, chegando a elaborar uma espécie de “preconceito contra o preconceito”, mas reconheceram a existência de prejulgamentos legítimos.

A origem etimológica da palavra preconceito já aponta a expressão de origem latina “praejudicium” que é comum a palavra prejuízo. Talvez pelo fato semântico de que todo preconceito invariavelmente corresponda a um prejuízo.

No prejuízo, ou melhor, no preconceito evidenciamos uma afirmação desprovida de justificativa racional, mas também é forçoso admitir que representa a fonte de controvérsias, de conflitos e, mesmo de violências que dividem e rivalizam os homens.

Define Kant o preconceito como “a tendência à passividade e, consequentemente, à heteronomia da razão.” E ressalta duas importantes questões que justifica plenamente a luta travada contra os preconceitos:

A primeira questão é, se a razão for passiva, esta pode ser embaraçada pelo erro e a ilusão; o preconceito deve ser combatido em nome da verdade;

A segunda questão é, se a razão for passiva, o sujeito não pensa por si mesmo e, recebe sua lei do exterior; é impelido pelo exterior e pelo alheio. O preconceito deve ser então combatido em nome da liberdade e da dignidade humana.

Pensar livremente é o que caracteriza o ser autônomo, é ser agente e sujeito de sua própria história, é ser senhor do próprio pensamento. É ser legítimo autor de sua própria ação em vida.

Segundo Hegel “o homem não é mais do que a série dos seus atos” e, ainda arremata vigoroso “o querer do homem é, essencialmente livre, livre enquanto é querer”. E, nesse sentido como o preconceito procrastina a liberdade este se revela desumano.

O homem é um animal mais racional quanto mais social, é a sociedade, mais até que a própria natureza, que deu à história da filosofia, o cérebro de Aristóteles, de Kant e de Spencer, e à história da ciência, o de Galileu, de Kepler, de Newton e de Einstein.

Os preconceitos constituem o que René Descartes denominava de “prevenção”, cuja presença é a prova da sobrevivência da criança no adulto.

O fato de termos uma longa infância e tendo sido crianças antes de sermos homens, quando fomos governados apenas por apetites e primeiras impressões e, ainda por nossos preceptores (professores e pais) e que por vezes eram contrários uns aos outros, e que, tanto uns, como outros, nem sempre nos aconselhavam o melhor.

Era quase impossível que nossos juízos puros e sólidos se formassem através da utilização integral uso de nossa razão desde a tenra idade e, se tivéssemos sido guiados somente pela razão. (Discurso do Método, Descartes, segunda parte).

Para a razão, o que é mal e nocivo é exatamente a irracionalidade do estado da infância. Demonstram os preconceitos serem falsas evidências que se originam de nossa incipiente experiência. Mas lembremos que o estado de infância é um estágio de instintos e que infans em latim significa “que não fala”.

Daí o porquê o infante tem sua inicial fase marcada por enorme dependência biológica, afetiva e intelectual. A infância nos obriga a aceitar, sem análise, uma série de representações e opiniões veiculadas na e através da linguagem.

O estado de preconceito é infelizmente inerente à condição humana. E, por isso devemos nos esforçar em empreender uma luta diária contra os preconceitos. O preconceito é prejulgamento.

O prejulgamento é a antecipação não problematizada de um conceito, é pronunciado sem exame completo e definitivo de todos os elementos objetivamente relevantes (H. G. Gadamer, Verdade e método, 1960, trad. it. Bompiaini, Milão, 1983, PP.317-8).

Embora que na linguagem utilizada pela doutrina de Francis Bacon o conceito de prejulgamento possua valor negativo de preconceito, o que não implica necessariamente sempre num juízo falso e infundado.

Já a prenoção é termo introduzido por Durkheim para indicar conceitos pré-científicos fundados na generalização imperfeita ou apressada, o que Francis Bacon denominava de antecipações ou ídolos (Régles de La méthode sociologique, p. 23).

Combater os preconceitos é um dever de quem realmente almeja alcançar o verdadeiro conhecimento e uma consciência insípida. Do ponto de vista ético, o preconceito é excludente e humilhante. E, só permite triunfar o senso comum, o “bom-senso” ingênuo e infantil.

O “bom-senso” corresponde a um modo de pensar de uma época no qual estão contidos todos os preconceitos e prejulgamentos dessa época (Hegel, Lições sobre a história da filosofia, tomo 1, p. 37).

Do ponto de vista teórico, o preconceito significa um obstáculo ao conhecimento. Revela-se o preconceito em ser pior que a ignorância que é apenas a falta de conhecimento, este se apresenta como um juízo do qual expõe a forma exterior.

Muitas vezes este se apresenta como uma razoável explicação de como as coisas são, mas, como não se baseia na razão, deve-se suspeitar de sua verdade.

Por vezes, não passa o preconceito de uma racionalização secundária de situações vividas e que pretende justificar e, portanto, manter-se. Uma generalização precária e capenga.

Mas apesar de todas as mazelas, o preconceito preserva uma função prática e até mesmo política. Por exemplo, o preconceito aos negros está arraigado a origem história desse poço, de como foram introduzidos na história do país, para servir de mão-de-obra vez que os indígenas não se quedaram cativos e obedientes.

Por exemplo, o preconceito aos nordestinos está vinculado ao fato destes virem buscar novas perspectivas de sobrevivência no sul e sudeste do país. E, algumas crenças culpam-lhes da desordenada ocupação das cidades, do aumento da criminalidade e, ainda, da invasão de práticas culturais distintas daquelas do local.

O preconceito as mulheres revela a necessidade de manter-se a situação social de submissão e subordinação com o padrão de família patriarcal e machista vigente por grande tempo na sociedade brasileira.

O preconceito aos homossexuais revela a necessidade de se manter os papéis sociais e sexuais voltados para a procriação e para heteronomia. Sem respeitar a liberdade de opção e a dignidade humana de cada um.

Todos esses preconceitos são infundados, injustos e promovem a violação da dignidade humana. Assim os preconceitos são bem próximos da ideologia que é sistema de representações e de valores próprios de uma determinada comunidade ou grupo.

Lembremos que o preconceito foi e ainda é perigoso combustível da intolerância e que ateou a humanidade em guerras cruéis e insanas. Onde se perderam vidas, valores e história.

O papel da ideologia é de integração social e legitimação da realidade. Traduz-se então o preconceito em ser mais que uma ignorância e menos que um juízo.

Questiona-se com vigor se é possível haver bons preconceitos, Voltaire indicou em seu Dicionário Filosófico que somente quando representa julgamento ratificado por meio da razão.

Por outro lado, por dissipar a dúvida e a análise, não podemos considerar nenhum preconceito como bom e justo. Portanto, o preconceito é um óbice ao pensamento que assume a si próprio, e que, deste modo nos liberta. Desta forma é sempre desejável evitar os preconceitos.

Desfeita a ilusão de ter relação direta e imediata com o mundo pois só alcançamos uma identidade através dos vínculos criados com a nossa família, sociedade e cultura.

Nascemos no mundo que nos institui como seres humanos através da educação, e, logo ab initio somos moldados e integrados em uma comunidade particular, definida por costumes, usos e éticas peculiares.

Aliás, a educação é processo de adaptação progressiva do indivíduo, às suas condições de existências, internas e externas, sob o tríplice aspecto: o biológico, o psicológico e o sociológico, consideradas em relação ao meio físico e ao meio social.

Apesar de ser o preconceito a origem de todo pensamento, o racionalismo do Iluminismo afirmou que não há autêntica aprendizagem sem que seja fria, seca e solidificada na razão e, por vezes, aprendemos muito mais por inclinação, formação e via autoridade.

O pensamento pode ser atividade mental ou espiritual; atividade do intelecto ou da razão, em oposição aos sentidos e à vontade; atividade discursiva e atividade intuitiva. O pensamento é simultaneamente a atividade produtiva e seu produto, é, portanto, a essência ou a verdade de tudo.

Herder não hesita em enunciar que os preconceitos são fortes, profundos, úteis e eternos e encontra fartamente adeptos entre os comunitaristas.[2] A promoção do preconceito está relacionada com a valorização das diferenças culturais e das reivindicações que geram identificação contemporânea.

E, a principal obra do filósofo canadense Charles Thaylor exemplifica oportunamente tal entendimento. A positividade dos preconceitos está ligada a aprendizagem da linguagem e que condiciona todos os demais aprendizados.

O que aprendemos de fato, ou melhor, o que apreendemos é uma língua correspondente a um produto social e histórico e que nos tatua definitivamente a consciência com uma particular visão de mundo.

Falar é manifestar nosso pertencimento ao mundo. É ato confessional sobre a relação com o mundo e que sempre é mediada por nossa linguagem. Signos decifráveis de nossos vínculos e afetos.

Essa linguagem veicula necessariamente prenoções e acarreta um despir, uma classificação do real, e isso implica toda uma pré-compreensão do mundo.

Gadamer em seu livro “Verdade e método” apontava que o preconceito não tem somente o sentido negativo de “juízo infundado”, mas pode também ser suscetível de apreciação positiva, no sentido de que toda pré-compreensão inicial constrói toda compreensão e, jamais parte do nada.

Se, por um lado os preconceitos constituem óbices à compreensão e levam a contrassensos, por outro lado, são fecundos e condicionam toda a compreensão que estes antecipam.

Os preconceitos são submetidos à prova pela compreensão, que permite aprimorá-los e retificá-los. Mas cogitar que se pode viver completamente sem preconceitos, seria pensar segundo o modelo da ciência, que é possível fazer abstração de si mesmo e de sua situação.

Adquirir consciência da situação possui dificuldade própria. O próprio conceito de situação requer que não estejamos diante desta, a fim de obter um conhecimento objetivo.

Quando estamos exatamente dentro da situação estaremos influenciados por esta e, interagindo com esta, impedidos estamos de elucidar adequadamente e completamente.

O distanciamento da situação ajuda na delimitação da observação e a construção da isenção estratégica para a análise. A opinião é peculiar por sua pluralidade e diversidade. É enraizada na experiência pessoal ou social, revela-se por ser um parecer, um expressar de um ponto de vista sobre o mundo.

O adágio repaginado por Spinoza “cada cabeça, uma sentença” serve para demonstrar certo ceticismo[3]. Pois de fato, a opinião é resultado de elaboração pessoal ou é recepcionada como reconhecida tradição e aceita.

A opinião constitui uma apreensão empírica do mundo que nos cerca, pode ser reivindicada ao enunciarmos publicamente: “essa é minha opinião” deve ser respeitada pois se reconhece em cada indivíduo o direito à liberdade de pensamento e de expressão.

Além da liberdade de crença, obviamente. Mas, é curioso perceber que ninguém todavia proclama: “esse é meu preconceito”. Em geral, procuramos escondê-los e escamoteá-los.

A função prática da opinião é forma de conhecimento empírico e, resultam em muitos conhecimentos técnicos que são obtidos através de ensaios e aproximações, por tentativas e erros.

A opinião por vezes obtida por mera intuição e pode ser legitimada a posteriori por sua utilização e ratificação. As técnicas são os tesouros do conhecimento empírico indispensáveis à vida, e à sobrevivência das sociedades humanas.

Se pode existir sociedades sem ciências, todavia, não há sociedades sem técnicas. Por vezes, para vergonha da ciência a admirável e revolucionária descoberta por vezes surge devido ao acaso e à experiência das técnicas.

As opiniões políticas ou morais desempenham um papel tanto na vida privada como na pública. Contemporaneamente, a democracia é regime político onde a opinião é levada em conta em suas múltiplas vias indiretas, como as eleições, as petições, as manifestações de pesquisa e populares e ações públicas.

O papel da opinião é de positividade e como já indicava Aristóteles não se pode exigir de tudo um rigor matemático .Para o que é somente provável e depende do contingente, portanto, a opinião é indispensável. Já o preconceito não.

A opinião refere-se a algo, como sendo verdadeiro ou falso, podendo ser diferente[4] do que é, portanto é instável e essa também é a natureza que reconhecemos em seus objetos.

Se o mundo fosse completamente transparente à ciência, não haveria lugar para a opinião. Mas neste mundo onde a contingência existe e persiste, onde as coisas são perecíveis, não há demonstração e nem ciência no sentido pleno.

Curial é reconhecer que o mundo é objetivamente incerto e, portanto, seu conhecimento é desdobrar de sua incerteza e, essa é a natureza da opinião.

Representa a opinião o conhecimento do provável, eivado de índice de probabilidade. Como insuficiência objetiva deve ser acompanhada por uma consciência subjetiva da insuficiência.

Concluímos que a opinião ocupa relevante lugar nos domínios onde é impossível julgar com exatidão através da proposição universal e necessária.

A opinião é plural e, é capaz de provocar o debate e a discussão. Lembrando que a democracia é regime político no qual as decisões são objetos de deliberações públicas em que se confrontam os pontos de vista e onde se trata em conjunto de coisa comum.

É patente a insuficiência teórica da opinião pois também lhe falta fundamento racional. Sendo instável e invariável e, portanto, é facilmente manipulável. E por ser a democracia o regime das opiniões é facilmente alvo da demagogia.

Demagogia é a atitude em que o indivíduo, sob a aparência ou pretexto de defende um interesse coletivo, de servir a causa comum, visa no íntimo, a tirar proveito próprio ou a satisfazer paixões e ódios pessoais ou políticos. Para galgar seus reais objetivos, o demagogo não se detém em escrúpulos de consciência.

Para Platão as opiniões correspondem à figura metafórica “as estátuas de Dédalo[5]” que tinham que ser acorrentadas para que não ousassem fugir. As opiniões “desertam da alma humana, de modo que não terão grande valor enquanto alguém não conseguir atá-las a um raciocínio causal”. Mas, “uma vez atadas, tornam-se ciência e permanecem fixas.

Portanto é preciso um encadeamento causal para estabilizar as opiniões e transformá-las em verdadeiros conhecimentos. Em relação à verdade, concluímos que as opiniões são insuficientes.

Para os cientistas as opiniões correspondem à grande entrave epistemológico que designa prenoções e preconcepções que pretendem explicar o mundo que nos cerca antes do estabelecimento da ciência.

Em muitas ciências tais obstáculos no momento de sua constituição, e às vezes também depois são mais fortes, quanto mais enraízam nos desejos ou interesses de natureza prática.

Mas a ciência com sua necessidade conclusão como em seu princípio opõe-se absolutamente à opinião. A opinião pensa mal, esta não pensa, apenas traduz a emergência das necessidades em conhecimentos.

Portanto, não se pode fundar nada sobre a opinião, é preciso primeiro destruí-la, depurá-la, pois esta é o primeiro obstáculo a ser superado. Para os filósofos, a opinião corresponde a uma fonte de insatisfação devido à insuficiência de fundamento de suas afirmações.

Todavia as opiniões são fecundas enquanto fonte de interrogações e problemas. É como diz Platão algo entre o ser e o não-ser e, está a meio do caminho entre a ignorância e a ciência.

E, se as opiniões se equivalem por sua insuficiência de fundamento racional, é forçoso admitir e reconhecer que existem opiniões falsas e verdadeiras. E, mesma a verdadeira insiste em ser inferior à ciência, no entanto, é muito útil para sua aplicação e disseminação.

Como Sócrates explica a Mênon, se eu quiser ir para Larissa, um guia que conheça bem a estrada, conseguirá conduzir-me até lá. Mas, se um outro guia tiver, uma opinião correta sobre qual é o caminho para Larissa, mesmo jamais o tendo percorrido nem tendo dele a ciência, será que este também não poderá ser um bom guia? (...)

Enquanto ele tiver uma opinião correta sobre as coisas de que o outro tem a ciência, será um guia tão bom quanto aquele que tem a ciência (Platão, Mênon).

Sendo uma conjectura pode a opinião ter valor mas ainda contém saber insuficiente por essa razão, esta toma a forma de uma crença, mais ou menos consciente dessa própria inconsistência.

A opinião é uma crença que sabe ser insuficiente seja em seu caráter subjetivo ou objetivo. Noutro viés, se a crença (objetiva e subjetiva) for suficiente receberá o nome de ciência.

A filosofia como busca da verdade deve pôr em questão preconceitos e opiniões que impõem uma pré-compreensão do mundo que nos cerca. Deve igualmente propor um repensar de crenças.

Deve assim considerar a ambivalência desta pré-compreensão que é simultaneamente obstáculo e abertura para abrir para a verdadeira compreensão.

Sabemos que nossa relação com o mundo nunca é direta e imediata pois é composta de nossas preconcepções e, ninguém pode ser totalmente racional e isento.

Ao acreditarmos em alguém supomos naturalmente mais verdades do que ele próprio estabelece (Tocqueville, in A democracia na América). Sinteticamente enquanto o preconceito é idéia recebida sem crítica e elaboração racional. E muitas vezes acionado pelo sistema de defesa que rejeita o novo, o diferente e o incomum.

É uma reação primitiva e infantil baseada muitas vezes nas primeiras impressões ou guiada por opiniões alheias. A opinião por sua vez é parecer realizado a partir da experiência, supõe relativa atividade intelectual com a comparação de situações particulares e reflexão...

Ainda que nutrida a opinião de generalizações grosseiras, é comum ouvirmos a expressão “formar opinião”, enquanto que é bem trivial manifestarmos “essa é minha opinião”, enquanto que ninguém ousará expor e indicar claramente: “esse é meu preconceito”.

Evidentemente nem todas as opiniões se equivalem, e temos tanto as opiniões verdadeiras e, ainda outras, que são falsas. Mas somente o conhecimento permite decidir sobre as opiniões opostas. E, nem todos os preconceitos se equivalem nem em sua perversidade e somente o uso sistemático da razão é eficaz para eliminar paulatinamente os prejulgamentos.

Por outro lado, por seu conteúdo parco, as opiniões se equivalem tendo em vista sua insuficiência teórica, portanto, uma opinião não vale mais do que a outra, pois nenhuma está veramente fundada na razão.

As opiniões são respeitáveis na exata medida em que as liberdades de opinião e de expressão lhes são reconhecidas. Na exata medida que respeitam a dignidade humana.

O juízo é a capacidade, a faculdade de distinguir o falso do verdadeiro. De distinguir entre ilusão e realidade. Ao passo que a opinião não tem base racional assegurada sendo variável e instável, o juízo de conhecimento é exatamente o oposto, sendo uma asserção fundamentada na razão e mais estável e constante. Porém, nunca imutável.

Descartes criticava os doutos que se satisfazem em utilizar um discurso enigmático para com isso galgar prestígio junto aos ignorantes. Rejeita efusivamente as meditações obscuras e confusas bem como as pesquisas desordenadas que geram o ecletismo.

Precisamos nos defender do pseudoconhecimento que é o preconceito e reconhecer a fragilidade das opiniões. E atingir um pensamento crítico preocupado de explicar, fundamentar suscitando o debate e o diálogo.

Que os preconceitos não inviabilizem o diálogo e a humanização das relações. Devemos nos perguntar para combater intimamente nossos preconceitos e opiniões se somos donos de nossos próprios julgamentos.

A crença ou o valor subjetivo do juízo em relação à convicção ( valor objetivo) apresenta três graus diferentes: a opinião, a fé e a ciência.

A opinião é uma crença que tem consciência de ser insuficiente tanto subjetivamente como objetivamente, e ao mesmo tempo for considerada objetivamente insuficiente, esta se chamará fé. O preconceito é prejulgamento vaidoso posto que não tem noção de sua própria insuficiência.

E, finalmente, a crença suficiente e plena tanto subjetivamente quanto objetivamente se chamará ciência. (Kant, Crítica à razão pura, p. 552).

A fé depende da certeza moral mas não do saber científico, pois há crença mesmo sem o saber. Alguns teólogos dizem que a crença é que desafia o saber...

Como bem elucidou Ionesco: “todos os homens sabem que são mortais mas nenhum acredita nisso”. E, portanto, devemos sempre rever nossas posições, refutar preconceitos, e nos deixar fatalmente seduzir pela experiência da dúvida. Afinal, a dúvida é um bom antídoto para o veneno cruel do preconceito.

 

Referências
RAFFIN, Françoise. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Pequena introdução à Filosofia. FGV de Bolso, Série Filosofia, Editora FGV, Rio de Janeiro, 2009.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução da 1ª. Edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi. Revisão da tradução e tradução dos novos textos Ivone Castilho e Benedetti. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007
LEITE, Gisele O que é o preconceito. Disponível em http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-que-e-preconceito/37401/ acesso em 15/01/2011.
______________ Discussões sobre o conhecimento e suas diferentes significações. Disponível em http://www.clubjus.com.br/?artigos&ver=2.30401 Acesso em 14/01/2011;
PIMENTA, Joaquim. (Sociologia e Ciências Correlatas). Consideravelmente aumentada. Livraria Freitas Bastos S.A., Rio de janeiro, 1963.
VOLTAIRE, Françoise Marie Arouet. Dicionário Filosófico. Editora Martin Claret, 2003.
DESCARTES, René. O discurso do método. Martin Claret, 2006.
ROCHA, Ethel Menezes. Animais, homens e sensações segundo Descartes. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-512X2004000200008&script=sci_arttext . Acesso em 14/01/2011.
Vocabulário de Filosofia disponível em http://www.filoinfo.bem-vindo.net/filosofia/ acesso em 15/01/2011.
WARAT, Luis Alberto. A rua grita Dionísio! Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2010.

Notas:
[1] Gostaria humildemente dedicar esse singelo texto aos que lutam e lutaram bravamente contra os preconceitos e os venceram. Resistem e sobrevivem. A todos que mesmo contra as expectativas gerais, atingiram seus objetivos e provaram ser superiores e mais dignos que a vileza da indiferença e do prejulgamento. São heróis cotidianos que constroem solidamente nossa realidade e história.
[2] Comunitarismo surge no final do século XX, por volta da década de oitenta e em oposição a certos aspectos do individualismo. E na defesa dos fenômenos como a sociedade civil. Entre os comunitaristas famosos temos Michael Walzer, Michael Sandel, Charles Thaylor e MacIntyre.
[3] Ceticismo originado do verbo grego skeptomai, “olhar a distancia”, é a doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que acarreta permanente questionamento e na inadmissão de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas.
[4] Convém invocar os onze direitos à alteridade segundo Warat : a) Direito a não estar só; b) Direito ao amor; c) Direito à autonomia, encontro com a própria sensibilidade; d)Direito à autoestima; e) Direito a não ser manipulado; f)Direito a não ser discriminado, excluído; g)Direito a ser escutado; h)Direito a não ficar submisso; i)Direito a transitar à margem dos lugares comuns, os estereótipos e os modelos; j)Direito a fugir do sedentarismo como ideologia e retornar à pulsão errância; k)Direito à própria velocidade; à lentidão.” Vide em: http://gerivaldoneiva.blogspot.com/2011/01/os-11-direitos-da-alteridade-segundo.html  
[5] “(...) Possuir uma obra de Dédalo sem tê-la encadeada é como ter um escravo fujão, é não ter nada, é ter algo que nada vale, porque, livres, ambos fogem, mas uma estátua bem atada vale muito, porque grande é a sua beleza” (...) Platão. Diálogos. Mênon, Banquete e Fedro. Tradução de Jorge Paleikat, 5ª edição, Porto Alegre, Globo, 1962, p. 101-102.
 

Informações Sobre o Autor

Gisele Leite

Professora universitária, Mestre em Direito, Mestre em Filosofia, pedagoga, advogada, conselheira do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.

 
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Informações Bibliográficas

 

LEITE, Gisele. Ainda sobre o preconceito .... In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIV, n. 86, mar 2011. Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9189>. Acesso em jun 2019.


 

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LEITE, Gisele. Ainda sobre o preconceito .... In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIV, n. 86, mar 2011. Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9189>. Acesso em jun 2019.